31 março 2015

O Espírita e a Imparcialidade

FotoProblema: Há possibilidade de ser imparcial aquele que pesquisou apenas um livro?

A história nos fornece subsídios para que possamos compreender a natureza da imparcialidade. Quando um historiador pesquisa uma única fonte, ele acaba se desviando da história verdadeira. A razão é muito simples: uma única fonte não abarca o problema por inteiro, pois aquilo que ali está escrito tem influência de limitação, da ideologia e do seu ponto de vista do autor. Ele pode ser induzido ao erro da absolutização do relativo. 

A Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, não está fechada sobre si mesma. Para início de conversa, Allan Kardec deixou claro que não inventou os Espíritos e muito menos o fenômeno mediúnico, que existem desde que o mundo é mundo. O seu trabalho foi organizar racionalmente, segundo o método teórico-experimental, as orientações trazidas pela plêiade de Espíritos superiores. Caso surgissem novas verdades, além daquelas contidas na codificação, o adepto deveria segui-las.

Em termos práticos, Allan Kardec deixou-nos uma divisa: "mudança comportamental". O que adianta obtermos um grande estoque de conhecimento, se esta ação não nos remeter à mudança de comportamento, principalmente com relação ao nosso semelhante? Este parece ser o problema-chave do ser humano, ou seja, receber com serenidade e tolerância a oposição ao seu modo de pensar. Lembremo-nos de que as deturpações mais trágicas começam com aqueles que se acham os únicos detentores da luz. 

Imparcialidade do espírita deve se basear na pesquisa e não pode ser a pesquisa de uma única obra, pois caímos no que comumente se diz de "religiões do livro", ou seja, as religiões que sacralizam somente os textos. A imparcialidade assenta-se numa mente aberta, aquela que vai ao encontro, primeiramente das obras básicas, depois das obras complementares e, por fim, de todo e qualquer avanço da ciência e da filosofia de nossa época. 

A imparcialidade deve sustentar-se na tolerância: todo adepto sincero, antes de criticar os outros, deve fazer um curso de paciência, tolerância e amor; o articulista espírita não precisa eleger-se em censor do atuar alheio. O Espiritismo é, antes de tudo, um modo de pensar, de raciocinar, de pesar os prós e os contras. O adepto do Espiritismo tem uma vantagem: pode receber constantemente as inspirações dos Espíritos amigos para auxiliar a sua evolução moral e espiritual.  

Tenhamos em mente a "alquímia da transformação". Sem isso, de nada valerá as horas dedicadas à absorção dos conhecimentos dos livros. 



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27 março 2015

Sentimento e Razão

SentimentoNo conceito de sentimento há diversas interpretações filosóficas. Primeiramente, é confundido com a emoção, a sensibilidade, a sensação e, em geral, oposto em bloco à razão. RazãoFaculdade de "bem julgar", de raciocinar discursivamente: conhecimento natural enquanto oposto ao conhecimento revelado, objeto da fé. 

Como fenômeno afetivo, o sentimento distingue-se dos fenômenos cognoscitivos e apetitivos, dos quais se pode dizer ser a "ressonância" psicológica. emoção é um estado da mesma natureza que o sentimento, porém de maior complexidade, pois é excitada por um complexo ideológico. Pode-se dizer, também, que o sentimento implica intencionalidade, mas também reação a determinada situação. Nesse caso, a emoção é uma reação de curto-prazo enquanto o sentimento é de longo prazo.

Ao longo do tempo, principalmente com o Iluminismo, a razão foi endeusada. Com isso, os objetivos da humanidade se inverteram. Os desdobramentos da razão deveriam levar o ser humano a Deus. Com a inversão, levaram-no à materialidade.

Mas, qual a relação entre razão e sentimento? A razão é fria, calculista, raciocina com a lógica. O sentimento é o elemento que vem completar o raciocínio, dando-lhe uma espécie de apoio moral. Nesse sentido, há necessidade de se mesclar sentimento e razão: a nossa ação deveria ser, se possível, emotivo-racional.

Para os Espíritos, o sentimento é a capacidade, o poder de auto-sensibilização, a disposição pronta, espontânea, pelo sofrimento do próximo, gerando uma identificação empática com os que padecem. 

Fonte de Consulta

ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA. Lisboa: Verbo, [s. d. p.]

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Socialismo e Espiritismo

Socialismo é a concepção política e econômica, de fundo ideológico, em que o bem geral prevalece sobre o interesse pessoal. Fundamenta-se na oposição ao individualismo e ao liberalismo econômico (capitalismo) por sua recusa da propriedade privada dos meios de produção e da livre concorrência. O socialismo era empregado anteriormente, mas como doutrina política e econômica surgiu na década de 1830, quando o termo entrou em uso corrente.

Na Europa continental, o marxismo era o alicerce intelectual do Socialismo, pois combinava uma teoria que explicava o desenvolvimento do capitalismo moderno, a divisão da sociedade em duas classes principais e a concepção de uma doutrina sociopolítica a respeito da organização, objetivos e táticas dos partidos socialistas.

O marxismo, tal como foi elaborado por Marx e Engels, é uma concepção dialético-materialista da natureza e da história, portadora de um projeto ético-político de transformação da sociedade dos tempos modernos. O marxismo é uma teoria filosófica, uma doutrina econômica, uma teoria da revolução e uma política multiforme seguido pelos regimes marxistas.

Comparando o Socialismo com o Espiritismo, temos:

1) Para o marxismo, o socialismo será implantado pela luta de classes; para o Espiritismo, o socialismo será implantado pelas classes de luta.

2) Para o marxismo, a felicidade do indivíduo estaria presa aos proventos materiais do trabalho (salários); para o Espiritismo, a felicidade do indivíduo iria além dos proventos materiais do trabalho (salários), pois implica evolução espiritual. São os "bônus-hora" de que nos fala o Espírito André Luiz, no livro Nosso Lar.

3) Para o marxismo, que é uma doutrina existencialista, o que temos é o niilismo, portanto sem vinculação palingenésica com o processo histórico; para o Espiritismo, que também é existencialista, tem como princípio a pluralidade e individualidade da alma após o desencarne. Há uma vinculação com o processo histórico. Ontem estivemos encarnados, hoje estamos e amanhã poderemos voltar.

4) A desigualdade verificada entre as classes sociais, no usufruto dos bens terrenos, perdurará nas épocas do porvir? Para o Espírito Emmanuel, na questão 55 de O Consolador, a pobreza, a guerra e a ignorância são enfermidades do organismo social, devido à situação de prova da quase generalidade dos seus membros. Cessada a causa, a moléstia coletiva estará eliminada.

5) Pode admitir-se, em Sociologia, o conceito de igualdade absoluta? É um erro grave. O que existe é uma igualdade absoluta de oportunidade ao crescimento material, moral, intelectual e espiritual de cada ser vivente.

Fonte de Consulta

DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

OUTHWAITE. W. e BOTTOMORE, T. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. Rio de Janeiro, Zahar, 1996.




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aura

Aura pode ser: emanação, radiação ou halo invisível de luz ou de cor em volta de uma pessoa; cada um dos princípios filosóficos que tem interferência na vida animal e vegetal; qualidade característica, mas intangível que parece envolver pessoa ou coisa. Para os nossos propósitos, é a radiação ou halo invisível de luz ou faixas de luz coloridas em volta de uma planta, de um animal, de uma pessoa, que podem ser captadas por clarividentes e sensitivos.

O "arco-íris humano", ou seja, as faixas de luz coloridas têm vários significados. Em se tratando do ser humano, indicam o seu estado mental e espiritual. Um sistema de interpretação é: ouro, espiritualidade; azul claro e roxo, poder de cura; rosa, amor e afeto sinceros; vermelho, desejo e raiva; verde, intelecto; marrom e sombras escuras e turvas, doença.

A crença na existência das radiações dos seres humanos não é recente. Na arte religiosa cristã, por exemplo, os santos são representados por um halo luminoso: nimbo, quando contorna apenas a cabeça; auréola, quando contorna o corpo todo.

Além dos sensitivos, a radiestesia e a fotografia kirliana são também usadas para captar essas radiações. A fotografia kirliana, um processo de fazer fotos dos padrões "bio-luminosos" das coisas vivas, é conhecida mundialmente. A fotografia kirliana é útil para diagnosticar doenças de pessoas, de animais e plantas pela aura, antes que surjam os sintomas físicos.

Em se tratando da Doutrina Espírita, temos:

1) No livro A Gênese, Allan Kardec explica-nos que os fluidos espirituais constituem um dos estados do fluido cósmico universal. São a atmosfera dos seres espirituais; são o elemento onde eles colhem os materiais com que operam. São o veículo do pensamento, como o ar é o veículo do som.

2) No livro Obras Póstumas, Allan Kardec diz que ao criarmos imagens fluídicas, o nosso pensamento se reflete em nosso envoltório perispirítico como num espelho. Isso toma um corpo, podendo ser fotografado, ou seja, captado pelo nosso interlocutor.

3) No capítulo 10 "Fluxo Mental", de Mecanismos da Mediunidade, o Espírito André Luiz diz-nos que a alma encarnada ou desencarnada está envolvida por uma túnica de forças eletromagnéticas, em cuja tessitura circulam irradiações que lhe são peculiares.

Em síntese, a aura, na espécie humana, reflete os diversos estados de consciência que o ser pode apresentar, desde os graus instintivos mais primitivos até os voos mais expressivos do altruísmo. Assim, para que tenhamos uma aura com uma dimensão mais elevada de vibrações, melhoremos o fluxo dos nossos pensamentos, direcionando-o para a prática do bem.

Fonte de Consulta

CAVENDISH, Ricardo (org.). Enciclopédia do Sobrenatural. Tradução de Alda Porto e Marcos Santarrita. Porto Alegre: L&PM, 1993.
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25 março 2015

Tristeza do Mentor

Em mensagem mediúnica, mentor se diz entristecido com os acontecimentos na esfera terrestre, cujas consequências são a transformação pelas dores, pois as trevas deverão ceder à luz. 

No âmbito da Casa Espírita, a sua tristeza diz respeito aos corações endurecidos de muitos dos seus colaboradores que não conseguem conviver com o choque de ideias. 

Solicita, assim, a transformação comportamental dos seres humanos em geral. 

Tempo vai tempo vem e o problema continua o mesmo, ou seja, a nossa mudança de comportamento no sentido de buscar o conhecimento verdadeiro e aplicá-lo em nosso dia a dia o exercício da tolerância para com as ideias alheias. 

É costume colocarmos a culpa no outro. Dificilmente, fazemos um exame de consciência para verificarmos onde erramos como nos ensinava Santo Agostinho, que repassa o seu dia para saber se tinha cometido alguma falha para com o seu semelhante. 

Saibamos a parte que nos toca no progresso da humanidade e metamos mãos à obra. 
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19 março 2015

Preto-Velho

Tese: Preto-velho é um espírito evoluído? Há somente um preto-velho ou são muitos?

Há uma tendência de as pessoas santificarem os que partem para o mundo espiritual: já não são mais humanos, mas super-humanos. A Doutrina Espirita, porém, ensina-nos que a nossa evolução é um árduo trabalho de longa duração, pois nada nos vem de mão beijada. Há necessidade de estudo, de pesquisa, de trabalho ininterrupto ao longo de toda a nossa vida. Quer dizer, um preto-velho pode ser (ou não) bastante evoluído. Nesse caso, a generalização é muito prejudicial. 

Os pretos-velhos são espíritos de antigos escravos africanos que se comunicam na umbanda. Enquanto o preto velho está associado aos ancestrais africanos, o caboclo está associado aos índios, ao baiano e aos imigrantes nordestinos. Estas duas terminologias estão dentro da umbanda, o costume de os escravos se reunirem após o trabalho, que se tornou uma religião (popular) genuinamente brasileira, pois absorve elementos do catolicismo, do espiritismo e das culturas indígenas e africanas.

A religião da umbanda tem cantos para chamar os santos, os ritos de purificação com água e o uso de incenso, sal e velas. Assenta-se em diversas linhas, com missão específica de cada uma delas: Linha de Santo (de Oxalá), Linha de Iemanjá, Linha de Xangô, Linha de Ogum, Linha de Oxóssi, Linha da África (de São Cipriano) e Povo do Oriente (de São João Batista).

Os pretos-velhos, objeto de nosso estudo, atuam na Linha da África (de São Cipriano), cuja missão é executar os trabalhos de magia para o bem. 

Os chefes das legiões desta linha são:  

Pai Guiné - Povo de Guiné: legiões de pretos-velhos ligados aos cemitérios.
Pai Benguela - Povo de Benguela: legiões de pretos-velhos ligados a Oxalá.
Rei Congo - Povo de Congo: legiões de pretos-velhos ligados às crianças.
Pai Cambinda - Povo da Costa: legiões de pretos-velhos ligados à Iemanjá.
Pai Jerônimo - Povo de Moçambique: legiões de pretos-velhos ligados às matas. 
Pai José - Povo de Angola: legiões de pretos-velhos ligados às matas.
Pai Francisco - Povo de Luanda: legiões de pretos-velhos ligados aos cemitérios. 

Fonte de Consulta

GASPAR, Eneida D. (org.). Guia de Religiões Populares do Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2002.

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18 março 2015

Transe

Transe. É um estado de baixa tensão psíquica com estreitamento do campo da consciência e dissociação. É caracterizado pela suspensão dos movimentos voluntários, e às vezes pelo automatismo da atividade ou do pensamento. 

O transe apresenta-se de várias formas: os mais comuns são o transe hipnótico e transe mediúnico. Além desses, há os provocados pela debilidade física, pelas drogas, pela música, pela respiração etc. Embora haja uma grande diversidade de modos, a raiz do transe é uma só, ou seja, a dissociação da consciência. O que varia, na realidade, são os graus do transe, que começa por um estado de "transe leve" e, depois, pode chegar até o estado da possessão extática. No transe hipnótico, por exemplo, há uma indução do hipnoterapeuta no sentido de relaxar progressivamente os sujeitos até estes atingirem o grau de dissociação da consciência.

Querer explicar o mecanismo do transe é entrar por um caminho nebuloso. O máximo que conseguiremos é expressar algumas hipóteses: 1) tensão forte prolongada, infligida ao cérebro, pelo corpo ou pela mente; 2) as drogas provocam falta parcial de oxigênio no cérebro; 3) os exercícios respiratórios inundam o sangue de oxigênio e privam o cérebro de açúcar. 

Os parapsicólogos dão, também, as suas explicações sobre o transe: para os discípulos de Wilhelm Reich, o transe é a reação da mente aos efeitos produzidos pela misteriosa "energia orgone"; para alguns junguianos, o transe é como "uma descida ao inconsciente coletivo"; para os behaviouristas modernos, o transe assemelha-se à inibição transmarginal, mecanismo de proteção do cérebro que, sob tensão, pode alterar a forma como responde aos estímulos externos. 

Quanto ao uso de drogas psicotrópicas, cabe uma observação: elas não são uma descoberta moderna, como a maioria tende a pensar. Na antiguidade clássica grega, o oráculo de Delfos mascava as "ervas de Apolo", os xamãs da Sibéria tomavam agárico (o "cogumelo sagrado" das teorias modernas) e os heróis semidivinos da antiga Índia bebiam o misterioso soma.

O transe mediúnico é considerado auto-sugerido, uma forma de auto-hipnose. No transe mediúnico, os médiuns autênticos atingem voluntariamente a dissociação de consciência. O transe mediúnico processa-se de forma progressiva. Observe o PACEM, fases do desenvolvimento mediúnico, criado pelo Comandante Edgar Armond: P - Percepção dos fluidos; A - Aproximação do Espírito comunicante; C - Contato do Espírito comunicante; E - Envolvimento do médium; M - Manifestação do Espírito comunicante.

A discussão do conceito e do mecanismo do transe é bastante útil. Para o médium autêntico, porém, o que importa é a vivência da comunicação mediúnica. 

Fonte de Consulta

CAVENDISH, Ricardo (org.). Enciclopédia do Sobrenatural. Tradução de Alda Porto e Marcos Santarrita. Porto Alegre: L&PM, 1993.



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