28 outubro 2009

Corrupção, Queda e Pecado Original

Corrupção significa ação de decomposição, de apodrecimento. Na ordem psicológica e moral, denota um estado desordenado e patológico da consciência que leva o sujeito livre a exercer o mal ou pecado. Para Aristóteles, corrupção “é uma mudança que vai de algo ao não-ser desse algo; é absoluta quando vai da substância ao não-ser da substância, específica quando vai para a especificação oposta”.

O mito da queda, segundo o qual a alma humana teria decaído de um estado original de perfeição, encontra-se em Platão, Plotino, os neoplatônicos, os gnósticos e os padres da Igreja Oriental. Orígenes explicou a formação do mundo sensível a partir da queda de substâncias intelectuais que habitavam o mundo inteligível. Esta queda foi o resultado da preguiça e da aversão ao esforço na prática do bem. Renouvier, no mundo moderno, retoma esta tese dizendo que o homem saiu livre das mãos de Deus, mas como criatura livre, perdeu-se no erro. Deverá, assim, passar por provas dolorosas para retornar à harmonia original do universo.

Corrupção, queda e pecado original se entrelaçam na Doutrina da Corrupção do Homem. As discussões filosófico-teologais a respeito do pecado original fundamentam-se no modo como o pecado foi transmitido de Adão aos outros seres humanos. São Tomás de Aquino reflete primeiramente sobre as hipóteses do traducianismo e da hereditariedade. No traducianismo, “a alma racional transmite-se com a semente, de tal maneira que de uma alma infecta derivam almas infectas”; na hereditariedade, “a culpa da alma do primeiro genitor transmite-se à prole, embora a alma não se transmita do mesmo modo como os defeitos do corpo se transmitem de pai para filho”. Posteriormente, formula a sua própria hipótese: “Todos os homens nascidos de Adão podem considerar-se um único homem, porquanto têm a mesma natureza, recebida do primeiro genitor, da mesma maneira como nas cidades todos os homens que pertencem à mesma comunidade se julgam um só corpo, e a comunidade inteira é como um único homem”.

Com Kant e Kierkegaard surge a interpretação filosófica (e não teológica) do pecado original. Os dois procuram separar a origem temporal da origem racional do pecado. A origem temporal deve ser explicada pela doutrina bíblica; a origem racional deve ser resolvida pela doutrina do “mal radical”. Neste caso, o homem está ciente da lei moral, mas prefere seguir o caminho do mal. Kierkegaard acrescenta a noção de angústia, ou seja, a proibição de Deus provoca angústia no que quer ser livre.

Para o Espiritismo, o pecado original não é aquilo que faz objeto do ensino dogmático da Igreja. É a culpa inicial do Espírito, trazida de encarnações passadas, a qual deverá ser solucionada no transcorrer desta vida. A pureza da criança é uma metáfora, pois nela há um Espírito velho, muitas vezes endividado, requerendo dos pais os maiores cuidados para que ele possa trilhar a senda do bem.

A tese filosófica do “mal radical” assemelha-se aos pressupostos da Doutrina Espírita, ou seja, o Espírito traz no seu âmago o conhecimento da Lei Natural. Desviando-se dela, cai no mal. Para prosseguir, deve sofrer primeiramente as consequências do mal; somente depois disso é que está livre para seguir o caminho do bem.
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14 outubro 2009

Sofrimento

A teologia dá grande apreço ao sofrimento, sugerindo que deveríamos imitar o mestre Jesus na cruz, que morreu nessa circunstância para nos salvar. Será necessário que o símbolo da cruz ocupe a posição central da religião cristã? Não teria sido a sua supervalorização a causa da pobreza em que vivem muitos religiosos cristãos? Como distinguir o bom do mau sofrimento?

A palavra apatia significa tanto a ausência de doença, de lesão orgânica, de sofrimento, como a ausência de paixão, de emoções. Apatia provém do grego clássico apatheia. Páthos, em grego, significa "tudo aquilo que afeta o corpo ou a alma" e tanto quer dizer dor, sofrimento, doença, como o estado da alma diante de circunstâncias exteriores capazes de produzir emoções agradáveis ou desagradáveis, paixões.

Há um masoquismo do passado fundamentado no Getsêmani, esse jardim que se tornou um símbolo para as dores humanas. Getsêmani é um jardim situado no sopé do Monte das Oliveiras, em Jerusalém (atual Israel), onde se acredita que Jesus e seus discípulos tenham orado na noite anterior à crucifixão de Jesus. De acordo com o Evangelho segundo Lucas, a angústia de Jesus no Getsêmani foi tão profunda que "seu suor transformou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão”.

Tal como acontecera a Sócrates, que foi obrigado a beber cicuta, Jesus não podia ter se eximido do martírio na cruz? O problema que se coloca: devemos escolher a apatia (desvio do sofrimento) ou aceitá-lo com resignação? Nos dois casos, tanto Sócrates quanto Jesus preferiram enfrentá-lo com determinação, no sentido de mostrar à humanidade que existem valores que estão acima da própria vida. Resultado: passados mais de dois mil anos e ainda estamos nos lembrando de seus exemplos.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, os Espíritos instruem-nos que há o bem e o mal sofrer. Eles nos dizem: “... Ficai satisfeitos quando Deus vos envia à luta. Essa luta não é o fogo da batalha, mas as amarguras da vida, onde é preciso, algumas vezes, mais coragem do que num combate sangrento, porque aquele que ficaria firme diante do inimigo, se dobrará sob o constrangimento de uma pena moral. O homem não é recompensado por essa espécie de coragem, mas Deus lhe reserva os louros e um lugar glorioso”.

Quando, pois, nos atingir um motivo de inquietação ou de contrariedade, esforcemo-nos por superá-lo. Sejamos sempre mais fortes que os inimigos do pensamento e teremos a recompensa do equilíbrio físico e espiritual.
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11 outubro 2009

Esquecimento de Si Mesmo

"É fácil desprezar a vida quando as dificuldades nos cercam; só prossegue corajosamente, aquele que sabe ser desgraçado". (Marcial - Epigramas, II, 9)

A vida é composta de mil nadas que são picadas de alfinete que acabam por nos ferir. Em qualquer época, e muito mais nos tempos presentes, nunca foi fácil manter o equilíbrio emocional e mental. Por isso, somos constantemente convocados ao exercício da paciência, com o seguinte recado: “Não despreze os deveres que a sua própria consciência colocou como objetivo em sua própria vida”. Aquele caminho sugerido, por mais desprezível que seja, pode ser o nosso porto de salvação, pois possivelmente não saberíamos escolher outro melhor.

Firmarmos-nos de tal modo em Jesus Cristo é uma excelente determinação. Há, no mundo, muitos convites, muitas sugestões e muitas portas largas onde estão os prazeres da carne e os vícios de todos os tipos. Apoiar-se cada qual em sua vocação é a melhor das determinações. A vocação religiosa, por exemplo, pode sugerir-nos, tal como aconteceu com Francisco de Assis, o voto de pobreza, a renúncia aos bens materiais, no sentido de nos dedicarmos inteiramente à vida espiritual.

Na família universal, a vocação de um serve de alimento para a vocação do outro. Cabe-nos, assim, potencializar todos os que Deus colocou em nosso caminho. Para o nosso próprio benefício, não deveríamos nos apegar a um posto, a um determinado lugar, mas estarmos sempre prontos a partir a um simples sinal do mestre. Buscar o desconhecido é um sacrifício que devemos fazer, pois renunciar ao que já sabemos exige grande fortaleza de ânimo. Lembremos da máxima evangélica: “Que deixado tudo, se deixa a si mesmo e saia totalmente de si, sem reservar amor-próprio algum, e, depois de feito tudo que soube fazer, reconheça que nada fez”. 

Muitas vezes, para progredirmos na vida espiritual é útil que os outros saibam os nossos defeitos e os apontem. Convém, mesmo estando sob o crivo da crítica, não nos desesperarmos. É nesse instante supremo de sofrimento que os Espíritos superiores instruem-nos para que esqueçamos de nós mesmos, renunciemos ao nosso “eu” e sirvamos mais intensamente ao mestre Jesus.

Para corroborar o nosso pensamento, escutemos o que Tomás A. Kempis, no livro segundo, capitulo 12, item 9, de Imitação do Cristo, diz: “Não é conforme à inclinação humana levar a cruz, amar a cruz, castigar o corpo e impor-lhe sujeição, fugir às honras, aceitar as injúrias, desprezar-se a si mesmo e desejar ser desprezado, suportar as aflições e desgraças e não almejar prosperidade alguma neste mundo. Se olhares somente a ti, reconheces que nada disso és capaz. Mas, se confiares em Deus, do céu te será concedida a fortaleza, e sujeitar-se-ão ao teu mando o mundo e a carne. Nem o infernal inimigo temerás, se andares escudado na fé e armado com a cruz de Cristo”.

Em todas as situações, consideremos os deveres que nos são impostos e as compensações a eles relacionadas, porque as bênçãos são muito mais numerosas do que as dores, quando olhamos o mundo do alto de uma montanha.
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