10 dezembro 2008

Vaidade: Algumas Notas

Vanitas vanitatum, et omnia vanitas. (Eclesiastes, 1, 2)

Em Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, Matias Aires não define o termo vaidade. Subentende-se paixão ou mais precisamente uma "concupiscência" que leva o homem a cuidar das aparências que das substâncias e a viver de mentiras e não de verdades. Para ele, a vaidade não é apenas uma força negativa. Sendo ela um efeito da corrupção, encontramo-la misturada a todos os nossos movimentos, tanto para o bem quanto para o mal. Ela não é uma paixão entre as demais, mas uma paixão sobre ou sob as demais. A vaidade leva à sociedade, à ciência, e até à virtude.

Prossegue dizendo que: "Destes menores delírios resulta e depende a sociedade; porque a vaidade de adquirir fama infunde aquele valor nos homens, que quase chega a transformá-los em muralhas para a defesa das cidades e dos reinos: a vaidade de serem atendidos os reduz à trabalhosa ocupação de indagarem os segredos da divindade, o giro dos astros, e os mistérios da natureza; a vaidade de serem amados os faz benignos; e finalmente a vaidade, ou amor da reputação os faz virtuosos". (Fragmento 30; cf. fragmentos 8, 36 e 75)

A vaidade, extraída dos dicionários e enciclopédias, é o desejo de atrair a admiração das outras pessoas. Uma pessoa vaidosa cria uma imagem pessoal para transmitir aos outros, com o objetivo de ser admirada. Mostra com extravagância seus pontos positivos e esconde seus pontos negativos. O vaidoso considera-se superior a todos, em relação aos seus dotes reais ou imaginários, e sente ofendido ou amesquinhado quando posto em confronto desfavorável com outros indivíduos. Chama-se a isto vaidade ferida, que é, muitas vezes, comportamentos anti-sociais. O indivíduo equilibrado em seus julgamentos tem consciência clara de seus dotes reais, não como motivo de orgulho, mas de responsabilidade em utilizá-los para fins morais elevados, e tem igualmente consciência de suas limitações, sem, todavia, deixar-se abater por este motivo.

Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns, fala-nos sobre a fascinação, que é uma ilusão produzida pela ação direta do Espírito sobre o pensamento do médium e que paralisa de algum modo seu julgamento acerca das comunicações. O médium fascinado não se julga enganado. Os Espíritos menos felizes podem inspirar-lhe uma confiança cega, podem atiçar o seu amor-próprio, colocando-o como o centro das atenções de todos os colaboradores de um Centro Espírita. Pronto, está atiçada a vaidade do médium.

Tomás Kempis, em Imitação do Cristo, diz: "Vaidade é, pois, buscar riquezas perecedoras e confiar nelas. Vaidade é também ambicionar honras e desejar posição elevada. Vaidade, seguir os apetites da carne e desejar aquilo pelo que depois, serás gravemente castigado. Vaidade, desejar longa vida e entretanto, descuidar-se de que seja boa. Vaidade, só atender à vida presente sem providenciar para a futura. Vaidade, amar o que passa tão rapidamente, e não buscar, pressuroso a felicidade que sempre dura".

Em termos religiosos, toda a situação que causa desprezo e humilhação é bom para o crescimento espiritual, porque evita a vanglória do crente e o coloca na sua verdadeira humildade. Quando somos elogiados, bem conceituados, não percebemos claramente os nossos defeitos. Vez ou outra, a Providência Divina permite que Espíritos menos felizes possam atingir o nosso amor-próprio, através de seus impropérios. Isso contudo, não pode nos desviar do rumo traçado.

Cristo sofreu desprezo e opróbrios. Por que temos que nos queixar dos outros? Lembremo-nos, sim, de desapegar o nosso coração do amor às coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis.

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02 dezembro 2008

Desejo de Saber: o Sensível e o Espiritual

Aristóteles, na sua Metafísica, diz que todo o homem tem desejo natural de saber. Tomás de Kempis, em Imitação do Cristo, complementa: "Mas que aproveitará a ciência sem o temor de Deus? Melhor é, por certo, o humilde camponês que serve a Deus, do que o filósofo soberbo que observa o curso dos astros e se descuida de si mesmo. Aquele que se conhece bem despreza-se e não se compraz em humanos louvores". Este saber, contudo, está mais relacionado com o sensível, aquilo que salta aos olhos, do que com o invisível, aquilo que está escondido.

Lembremo-nos da história do homem comum que pede ao sábio uma explicação sobre a felicidade. O sábio desenvolve o seu raciocínio através de perguntas. Ele diz ao homem comum: olhe para o mundo. O que você vê? Eu vejo casa, comida, pessoas, florestas. O que mais você vê? Eu vejo as cidades, os países, o planeta Terra. O que mais? Os espaços siderais, as constelações, as galáxias. E o que mais? Creia-me senhor, eu não vejo mais nada. Aí o sábio diz: se é só isso o que você vê, como posso lhe ensinar o que seja a felicidade.

A que isso nos remete? O sensível estimula mais do que o invisível. Por isso, dizemos que as aparências enganam. Em realidade, não são as aparências que nos enganam, nós é que nos enganamos com elas. No caso, a felicidade está além do objeto material, embora deste necessitemos para a nossa sobrevivência. A verdadeira felicidade, no entanto, exige que o campo mental do espírito penetre outras realidades, realidades estas antevistas através de um sentimento, de uma emoção, de uma inspiração, de um arrebatamento.

Para obtermos uma visão mais acurada da realidade, precisamos exercitar o nosso senso crítico. Senso crítico não significa criticar por criticar, mas buscar a verdade que está além dos fatos observados. A pessoa que está sempre reclamando pensa que desenvolveu o senso crítico. O senso crítico não é reclamar do governo, da Igreja, das pessoas, mas procurar ver as coisas como elas realmente são e não sob o guante dos nossos preconceitos, dos nossos estereótipos, das nossas idiossincrasias.

Tomás Kempis sugere ainda que renunciemos ao desordenado desejo de saber, porque nele há muita distração e ilusão. Ele diz: "Os letrados gostam de ser vistos e tidos por sábios. Muitas coisas há cujo conhecimento pouco ou nada aproveita à alma. E mui insensato é quem de outras coisas se ocupa e não das que tocam à sua salvação. As muitas palavras não satisfazem a alma, mas uma palavra boa refrigera o espírito e uma consciência pura inspira grande confiança em Deus".

Em tudo o que fizermos, pensemos em Deus primeiro. Quantos não são os conhecimentos que nada auxiliam a evolução do nosso espírito imortal?

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12 novembro 2008

Nascimento de Jesus e Virgindade de Maria

Mateus e Lucas, no início dos seus evangelhos, enfatizam a virgindade de Maria. Com palavras diferentes, consolam Maria e José sobre as dificuldades da geração de um filho sem o contato carnal. Maria indaga: como posso ter um filho sem contato com um homem? O anjo Gabriel, no entanto, foi até Maria e lhe confiou que ficaria grávida do Espírito Santo e geraria um filho de nome Jesus, o qual seria o salvador da Humanidade. Depois de refletir sobre a recomendação do anjo, Maria disse: "Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo ausentou-se dela". (Lucas 1, 38)

A virgindade de Maria pode ser analisada sob vários ângulos. Em diversas religiões antigas, a virgindade das deusas tinha um valor sagrado, ou seja, realçar a eterna juventude, a incorruptibilidade. Do ponto de vista do Velho Testamento – que prescrevia o aumento do povo de Deus –, a virgindade equivalia à esterilidade, que era uma humilhação, um opróbrio. No Novo Testamento, a virgindade de Maria – pelo seu desejo de guardar a virgindade –, ao contrário da humilhação, torna-se uma bênção para as mulheres que não tiveram filhos.

A questão que se levanta: há possibilidade de uma pessoa nascer sem o contato sexual, quer seja fisicamente, quer seja por meio de inseminação artificial? De acordo com a Lei Natural da Reprodução, isto é impossível. Podemos, contudo, fazer algumas ilações sobre a virgindade, não só a de Maria, mas também a de Jesus, a de Paulo e a de todos os que permaneceram nesta situação.

Muitos cristãos, principalmente padres e freiras, justificam a virgindade como sendo um caminho para a obtenção do Reino de Deus. Segundo Paulo, a virgindade é preferível ao casamento porque ela é um devotamento integral ao Senhor: o homem casado está dividido; os que permanecem virgens não têm o coração dividido, estão inteiramente consagrados a Cristo, têm com seu cuidado os interesses do Senhor e não se deixam distrair dessa atenção constante.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, quando trata do casamento e divórcio, tópico da Lei de Reprodução, diz: "Deus não se contradiz nem considera mau o que ele mesmo fez. Não pode, pois, ver o mérito na violação da sua lei. Mas se o celibato, por si mesmo, não é um estado meritório, já não se dá o mesmo quando constitui, pela renúncia às alegrias da vida familiar, um sacrifício realizado a favor da Humanidade. Todo sacrifício pessoal visando ao bem e sem segunda intenção egoísta eleva o homem acima da sua condição material".

A virgindade, simbolicamente, pode ser vista em termos de pensamentos, palavras e atos. Se nossos pensamentos forem puros, as nossas palavras também o serão e conseqüentemente nossas ações. Eis o verdadeiro tripé para os arautos do Senhor.

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15 outubro 2008

O Sono dos Cristãos

Os papas, os padres e muitos escritores religiosos chamam a atenção para o despertamento dos cristãos para a realidade espiritual, atribuindo-lhes um sono profundo. Para a maioria deles, aqueles que tiveram a oportunidade de entrar em contato com os ensinamentos de Jesus devem assumir um compromisso (com suas consciências) de acordar os outros cristãos que ainda dormem.

A citação básica para as suas admoestações é aquela narrada por Mateus, em que Jesus, próximo à sua morte, visita por três vezes os seus apóstolos e os encontra dormindo (Mateus 26, 39 a 46). Deste texto, surge o seguinte: 1) A observação de Jesus: “Por que dormis?” (“Quid dormitis?) — Lucas 22, 46; A Sua advertência: “Basta! Chegou a hora!” (“Sufficit! Venit hora!”) — Marcos 14, 41; A Sua ordem: “Despertai, vamos!” (“Surgite, eamus!”) — Mateus 26, 46.

De onde vem a letargia dos cristãos? A sociedade está organizada materialmente. Tudo o que fazemos, fazemos com o intuito de obtermos um retorno financeiro, ou seja, fundos que possam ajudar a nossa subsistência. As necessidades espirituais do ser humano ficam em segundo plano. Na vida pública, salvo raras exceções, o que impera é o jeitinho, a falcatrua, as injustiças sociais, de modo que aquele que quer viver honestamente é muitas vezes alijado da mesma.

O verdadeiro cristão deve preferir a meditação ao sono, pois este pode nos levar ao pesadelo. A meditação – ou autoconsciência – como já nos ensinava Sócrates na Antiguidade, nada mais é do que a tomada de consciência das verdades espirituais. Dizer a verdade e mostrar a uma pessoa que ela é injusta pode trazer muitos aborrecimentos para a pessoa que o disse. Pergunta-se: como plantar o Reino dos Céus no coração das pessoas, se não se chamar a atenção para os erros de interpretação das verdades eternas?

Acordar para a realidade espiritual é refletir, de modo tranqüilo e racional, sobre as advertências de Jesus, tentando captá-las na sua verdadeira pureza. Nesse sentido, o Espiritismo pode nos ajudar sobremaneira, porque os benfeitores espirituais estão sempre nos orientando e nos ensinando sobre o verdadeiro sentido dos ensinos trazidos por Cristo. O “não vim trazer a paz, mas a espada” é muito oportuno. Tem-se a impressão que Jesus veio fomentar a guerra, quando, na verdade, veio dizer que toda a ideia nova é factível de debates, de contrariedades.

Acordar é despertar o ânimo dos que estão desesperados. O Espiritismo vem cumprir muito bem essa tarefa. Diz-nos que a idiotia, as deficiências físicas e as doenças incuráveis têm sua explicação na lei de causa e efeito. Se as causas não puderem ser encontradas nesta existência, poderemos procurá-las em existências passadas, de modo que sempre teremos um consolo para a nossa alma enfermiça.

O Espiritismo está apto a acordar os que domem, porque o faz através da razão. Aprender a equilibrar razão e emoção é o imperativo básico para uma vivência plena e de muitas realizações.

Por que Dormis?

"E Disse-lhes: Por que estais dormindo? Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação". - Lucas, 22, 46.

Nos ensinos fundamentais de Jesus, é imperioso evitar as situações acomodatícias, em detrimento das atividades do bem.

O Evangelho de Lucas, nesta passagem, conta que os discípulos “dormiam de tristeza”, enquanto o Mestre orava fervorosamente no Horto. Vê-se, pois, que o Senhor não justificou nem mesmo a inatividade oriunda do choque ante as grandes dores.

O aprendiz figurará o mundo como sendo o campo de trabalho do Reino, onde se esforçará, operoso e vigilante, compreendendo que o Cristo prossegue em serviço redentor para o resgate total das criaturas.

Recordando a prece em Getsêmani, somos obrigados a lembrar que inúmeras comunidades de alicerces cristãos permanecem dormindo nas convivências pessoais, nos mesquinhos interesses, nas vaidades efêmeras.Falam do Cristo, referem-se à sua imperecível exemplificação, como se fossem sonâmbulos, inconscientes do que dizem e do que fazem, para despertarem tão-só no instante da morte corporal, em soluços tardios.

Ouçamos a interrogação do Salvador e busquemos a edificação e o trabalho, onde não existem lugares vagos para o que seja inútil e ruinoso à consciência.

Quanto a ti, que ainda te encontras na carne, não durmas em espírito, desatendendo aos interesses do Redentor.

Levanta-te e esforça-te, porque é no sono da alma que se encontram as mais perigosas tentações, através de pesadelos ou fantasias.
XAVIER, F. C. Caminho, Verdade e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB. Cópia do capítulo 87.
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01 outubro 2008

A Semente

A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória.

A semente – do grego sperma – tem relação com o concreto e com o metafórico. Concretamente, joga-se uma semente na cova; depois, espera-se o tempo necessário para a sua germinação, até que dê os seus frutos. Metaforicamente, é a transferência que fazemos dela para o campo do espírito, da moral, da evolução do ser humano.

Deus, quando criou o Universo, fez também a Natureza, para que o ser humano pudesse produzir pelo seu próprio esforço. É jogando a semente ao solo que poderá produzir frutos e auxiliar a sua própria subsistência. Há, assim, uma relação perfeita entre o humano e o divino: estamos na Terra, mas o nosso pensamento voa ao Infinito. A busca de conhecimento não é para encher a memória, mas para ajudar a marcha ascensional do nosso Espírito imortal.

A semente deve retratar este vínculo perfeito entre o ser humano e o Ser Supremo. Devemos escolher bem o terreno em que ela será jogada, pois uma vez lançada é natural que produza os seus frutos. Da mesma forma que adubamos o solo e regamos a planta, o mesmo devemos fazer com relação ao nosso Espírito: arroteá-lo, limpá-lo e adubá-lo emocionalmente, no sentido de estar o mais preparado possível para receber os ensinamentos espirituais.

Há, assim, a "semente divina" e a "semente humana". A semente divina ou a palavra divina é sempre pura; a semente humana, a palavra humana, além de limitada, pode estar sujeita a muitos mal-entendidos. Nada disso, contudo, impede de a semente crescer, como no contexto em que o joio cresce junto com o trigo. No momento oportuno, haverá a separação. Se quisermos separá-lo antecipadamente, poderemos arrancar também o trigo.

Quando estamos nos reportando às coisas do Espírito, estamos nos referindo à palavra de Deus, ou mesmo à palavra de Jesus. Quando dizemos que o Senhor saiu a semear, devemos entender que está havendo a disseminação da boa-nova no seio da população. A palavra diz respeito ao Reino de Deus, à obtenção da vida eterna, à salvação da alma. A salvação, contudo, que a semente intui não é a salvação beatífica; refere-se à iluminação interior.

A semente, uma vez lançada, germinará com certeza. Tenhamos, pois, o cuidado de bem preparar o nosso terreno espiritual, a fim de que ela produza cento por um.
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Parábolas

Consultando o "Dicionário Bíblico", verificamos que os antropomorfismos do Velho Testamento são verdadeiras parábolas, pois como o ser humano tem dificuldade de explicar a origem do homem e do mundo, ele se vale dos mitos. Entre tais mitos, encontra-se aquele que está relatado na Bíblia: “Deus, do pó da terra, cria Adão; depois, sopra-lhe as narinas e lhe dá vida. Não satisfeito, retira-lhe uma das costelas e cria a Eva, que será a sua companheira no paraíso". Segundo a letra, este texto carece de sentido; há necessidade de uma interpretação metafórica.

As parábolas, no judaísmo tardio, eram formas de transmitir conhecimento. Os rabinos, ou melhor, os doutores israelenses, aqueles que explicavam a lei entre os hebreus, usavam-na intensivamente. Jesus, ao ensinar por parábolas, nada mais fazia do que aplicar o método de ensino utilizado pelos escribas. A parábola, por seu turno, é sempre comparação. Jesus segue o modelo: “A que irei comparar?” A fórmula usada é: “O reino de céus é semelhante...” Na Parábola do Semeador ele diz: “O Senhor saiu a semear...”.

A parábola contém o enigma, o símbolo e o apocalipse. São revelações de imagens que necessitam de uma explicação posterior. A parábola é um meio catequético e estilístico bem adaptado ao povo judeu. Não resta dúvida que era um método de ensino já enraizado na cultura daquele povo. Jesus, dando continuidade ao método, dizia: “Aquele que tem ouvidos de ouvir, ouça”; “Aquele que tem olhos de ver, veja”. Com isso, dava-nos a entender que as palavras estavam acima delas mesmas, isto é, precisavam de uma interpretação simbólica.

As parábolas aparecem como uma condição necessária para que a razão se abra à fé: quanto mais penetrarmos no seu enigma, no seu simbolismo, mais compreenderemos as coisas espirituais. O aspecto velador das parábolas é também providencial. Lembremo-nos de que depois de proferir publicamente um ensinamento, Jesus se reunia com os seus apóstolos para lhes dar uma explicação mais detalhada. Ainda assim, não lhes dizia tudo, porque estes não tinham capacidade de tudo absorver.

As parábolas são divididas em duas categorias: 1) com ênfase no conteúdo doutrinal; 2) com ênfase no aspecto moralizante. A Parábola do Semeador e a Parábola do Grão de Mostarda, por exemplo, são arroladas na ênfase doutrinal; a Parábola do Amigo Incômodo, do Juiz Injusto e do Bom Samaritano, na ênfase moralizante. Esta distinção não deve ser exagerada, porque tanto as do primeiro grupo quanto as do segundo grupo contêm aspectos doutrinários e morais.

A parábola é um aprendizado contínuo. Para desfrutarmos de todas as suas instruções, precisamos visitá-las periodicamente, pois a cada nova leitura um novo conhecimento pode ser absorvido.

Mais sobre a Parábola (julho de 2009)


Parábola – do grego parabolé, que vem de pará (=ao longo de, ao lado de, passando perto, junto de) e bolé (=o que foi jogado). Bolé vem do verbo grego bállo, que significa jogar, lançar. Para expressar o ato de lançar uma pedra, que passa de raspão, os gregos usam o verbo paraboleúomai. Parábola é arriscar-se, passar perto, raspar. Por isso, as várias interpretações acerca das parábolas contadas por Jesus. São ensinamentos que passam de lado, não atingindo diretamente as pessoas. Há necessidade de uma explicação, de uma análise mais aprofundada.

Jesus transmitia os seus ensinamentos através de histórias (parábolas), extraídas da vida cotidiana. A compreensão dessas passagens evangélicas não vem de mão beijada. É preciso o studium que, em latim, significa empenho, zelo, esforço. Nada se aprende brincando. Há necessidade de concentração, de aplicação cuidadosa de nossa mente na resolução de um problema, de uma dificuldade.

Um exemplo de esforço, de dedicação à causa evangélica, é a passagem relatada no livro I Fioretti, de São Francisco de Assis, em que manda Frei Bernardo a Bolonha, para ali fazer frutificar os ensinamentos cristãos. Frei Bernardo, munido da cruz do Cristo, para lá se dirige, sofrendo todo o tipo de opróbrio, tanto das crianças como das pessoas mais velhas. Um sábio juiz, observando a sua virtuosa constância, pensa: “É impossível que este não seja um santo homem”. Aproximando-se e conversando com Frei Bernardo, oferece-lhe um lugar para louvar o Senhor. Frei Bernardo, porém, retirou-se e voltou para São Francisco, dizendo: “O local está preparado na cidade de Bolonha. Manda, pois, pai, frades para que lá morem, porque para mim nessa cidade não há mais grande lucro; ao contrário, pela grande honra que lá me tributam, temo mais perder do que ganhar”.

Os discípulos do Senhor alegravam-se pelas injúrias e entristeciam-se com as honras. Iam pelo mundo como peregrinos e forasteiros, nada levando consigo, a não ser Cristo. Geralmente, temos olhos para não ver. Jesus, com as parábolas, abre-nos a visão, estimula-nos a pensar e a repensar, tentando encontrar uma explicação mais acurada para aquilo que parece nebuloso, sem nexo. Como, num mundo materializado, pode-se entender aquela alma que larga tudo por um ideal, levando consigo apenas o Cristo?


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26 setembro 2008

Paulo: o Apóstolo dos Gentios

Paulo nasceu em Tarso, na Cilícia, no ano 3 da era cristã, desde que se aceite que a morte de Jesus ocorreu no ano 29 e não no ano 33. Recebeu na circuncisão o nome de Saulo. Somente mais tarde, quando entrou para o mundo cristão, mudou-se para Paulo. Ainda jovem é enviado para Jerusalém, para freqüentar a escola de Gamaliel, e preparar-se para a função de escriba. Como era costume judeu, toda a criança devia ser ensinada num trabalho manual. Ensinaram-lhe, assim, a profissão de tecelão. Na época em que Jesus fora crucificado, Paulo não devia estar em Jerusalém, pois não temos notícia de que o havia conhecido pessoalmente.

Paulo era de pequena estatura e aspecto enfermiço. Ele mesmo falava de sua doença. Contudo, isso não o impedia de ser um argumentador ilustre e um profundo psicólogo. Era radical na defesa da lei mosaica. Perseguia, prendia, interrogava sem piedade os cristãos. Não o fazia por vaidade, mas para cumprir a lei, para cumprir aquilo que acreditava ser a verdade, pois fora introduzido nas escrituras do Velho Testamento. Chegou, inclusive, a assistir à morte de Estevão, irmão de sua noiva Abigail.

Dono de uma personalidade marcante, recebe uma autorização do sumo sacerdote, para ir a Damasco prender os cristãos. Na estrada de Damasco, por volta do meio-dia, um clarão esplendoroso derruba-o de seu cavalo, deixando-o cego. Nesse ínterim, ouve a voz de Jesus lhe dizer: “Saulo... Saulo... porque me persegues?” Depois de restabelecida a visão, por intermédio de Ananias, Paulo torna-se um novo ser humano, um ser que mudou o seu comportamento religioso da noite para o dia, causando, inclusive, dúvidas junto aos seus familiares e amigos mais íntimos.

Depois da guinada de 180 graus, precisou de um tempo de preparação para a nova fase de sua vida. O trabalho, com o tear, junto a Áquila e Priscila, foi providencial. De acordo com as instruções dos benfeitores espirituais, a pregação evangélica necessita de um período de maturação, principalmente para aqueles que se lhes opuseram por largo tempo. Posteriormente, a sua pregação começa pelas sinagogas dos judeus. A obstinação dos judeus, contudo, cria dificuldades à expansão do Evangelho. Por isso, a sua dedicação aos gentios, que eram mais fáceis de aceitarem a boa-nova. Daí, a designação de “apóstolo dos gentios”.

Paulo tinha uma postura exemplar. A cada nova igreja que criava, mantinha-a sob sua guarda, visitando-a e tomando nota das suas necessidades. Quando não podia ir pessoalmente, escrevia cartas (epístolas) no sentido de mantê-las informadas sobre os novos ensinamentos. Essas cartas constituíram o “Quinto Evangelho”. Nelas estão arroladas reflexões sobre vários assuntos, desde a conduta da mulher na igreja até as mais radicais correções do pensamento. Observe, por exemplo, estes: “O bem que quero fazer não faço; e o mal que não quero, esse eu pratico”; “Já não sou eu que vivo, é o Cristo que vive em mim”.

Paulo é um exemplo vivo de como podemos mudar radicalmente a nossa conduta. Uma vez aceita a palavra da vida eterna, o novo homem deve entrar em cena, consoante a sentença evangélica: “Aquele que tomar a charrua e olhar para trás, não é digno do Reino de Deus”.

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24 setembro 2008

Paulo e as Epístolas

Paulo viveu na época de Jesus. O seu nome em hebreu é Saulo. Conforme costume judeu, que prescrevia o ensino de uma profissão às crianças, Paulo torna-se tecelão. Saulo é enviado a Jerusalém onde se torna discípulo de Gamaliel, adquirindo vasto conhecimento das escrituras e das tradições judaicas.

Enquanto Jesus era crucificado pelo anúncio de seu Evangelho, Saulo transforma-se num ferrenho perseguidor dos cristãos, na Palestina e na Síria. Jesus havia começado com 12 apóstolos; depois, passou para 120; quando da sua morte, já eram mais de 5.000. Estando a caminho de Damasco, no intuito de perseguir os cristãos, tem uma queda. Nela ouve os seguintes dizeres: “Saulo... Saulo... porque me persegues?” A queda deixa-o cego por alguns dias, sendo obrigado a se curar com o homem a quem perseguia, ou seja, Ananias. Depois de restabelecido, surge um novo homem, um homem voltado para o Cristo.

Paulo captou de tal modo a sua missão, que nada lhe tirava esse ímpeto de seguir o Cristo, nem que para isso fosse necessário perder a própria vida. Depois de alguns anos de quietude, junto ao tear e em companhia de Áquila e Prisca, dá ensejo à sua nova tarefa: divulgar os ensinamentos de Cristo. Para isso, não se intimida ante as perseguições, as desconsiderações e as prisões. Segue os ensejos de seu coração, mas não é capaz de evitar a sua trágica morte (por decapitação).

Impossibilitado de visitar todas as igrejas nascentes, recebe inspirações do além para escrever as cartas, chamadas de epístolas. Doravante, passou a expressar os seus pensamentos em forma de crônicas, para que o maior número de pessoas pudesse entrar em contato com a boa nova do Cristo. Por detrás de toda a comunicação estava a complacência dos Espíritos Estêvão e Abigail, que lhe incentivavam o trabalho. Paulo escreveu 14 epístolas, destinadas aos tessalonicenses, aos coríntios, aos gálatas, aos romanos etc.

Paulo estava preocupado com a divulgação da sã doutrina do Cristo. Neste sentido, combate a idolatria, a circuncisão, o pecado, a luxúria etc.; exalta a justiça pela fé, a humildade, a caridade, a fidelidade a Deus, a submissão à autoridade, a tolerância para com os fracos da fé etc.; dá orientações de como a mulher deve portar-se na Igreja; responde às perguntas sobre o casamento; fala de seus sofrimentos na luta pela implantação da "Boa-Nova"; diz que a Lei é impotente para salvar, mas conduz a Cristo e à fé; descreve acerca da diversidade dos dons espirituais.

Paulo foi quem universalizou o Cristianismo. É o exemplo vivo de como o homem velho pode se transformar no homem novo. Sigamos os seus exemplos. 

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Apocalipse de João

Apocalipse – do grego apokalypsis significa revelação. O apocalipse de João consiste na revelação tida por João, o Evangelista, na Ilha de Patmos, narradas no fim do Novo Testamento, sobre os futuros acontecimentos que envolverão o planeta e a Humanidade.

João era médium. Conta-nos o Espírito Emmanuel, em A Caminho da Luz, que Jesus chama aos Espaços o Espírito João, transmitindo-lhe a linguagem simbólica. “Recomenda-lhe o Senhor que entregue os seus conhecimentos ao planeta como advertência a todas as nações e a todos os povos da Terra, e o Velho Apóstolo de Patmos transmite aos seus discípulos as advertências extraordinárias do Apocalipse. Todos os fatos posteriores à existência de João estão ali previstos”.

O apocalipse de João está repleto de simbolismos. O Espírito Emmanuel, no livro acima citado, desvenda-nos alguns deles. Ele identifica a besta como sendo o papado e o número 666 como sendo o Sumo pontífice da igreja romana quem usa os títulos de “VICARIVS GENERALIS DEL IN TERRIS”, “VICARIVS FILII DEI” e "DVX CLERI" que significam "Vigário-Geral de Deus na Terra", "Vigário do Filho de Deus" e “Príncipe do Clero". Bastará ao estudioso um pequeno jogo de paciência, somando os algarismos romanos encontrados em cada título papal, a fim de encontrar mesma equação de 666, em cada um deles.

Quantos aos cataclismos futuros, Allan Kardec, em A Gênese, diz-nos: "Fisicamente, a Terra teve as convulsões da sua infância; entrou agora num período de relativa estabilidade: na do progresso pacífico, que se efetua pelo regular retorno dos mesmos fenômenos físicos e pelo concurso inteligente do homem. Está, porém, ainda, em pleno trabalho de gestação do progresso moral. Aí residirá a causa das suas maiores comoções. Até que a Humanidade se haja avantajado suficientemente em perfeição, pela inteligência e pela observância das leis divinas, as maiores perturbações ainda serão causadas pelos homens, mais do que pela Natureza, isto é, serão antes morais e sociais do que físicas".

O grande aprendizado do apocalipse está no apelo à evolução do ser humano. Ao longo do tempo, esquecemos os ensinamentos evangélicos e nos chafurdamos no materialismo exacerbado. Contudo, a lei do progresso nos chama a atenção para uma volta à prática do bem e à redescoberta da verdade. Para que isso ocorra, porém, a humanidade deverá sofrer grandes revezes, traumas incontáveis, a fim de que a luz da nova era possa penetrar no seio de todos os viventes.

Em qualquer atividade do intelecto, devemos ter a humildade de aceitar as diretrizes do Alto. Somente assim conseguiremos nos postar mais de acordo com os anseios dos benfeitores da humanidade.

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17 setembro 2008

A Geração Nova

“A Geração Nova” é um subtítulo do capítulo XVIII – São Chegados os Tempos – do livro A Gênese, de Allan Kardec. Por geração nova, entende-se uma Humanidade mais evoluída do que a atual, uma Humanidade em que a inteligência e a razão caminham em perfeita harmonia com o sentimento inato do bem.

A regeneração da Humanidade faz parte da Lei do Progresso e está nos planos de Deus. Nosso próprio Planeta já passou por várias transformações físicas, desde a sua criação, há 5 bilhões de anos. É possível que, materialmente, ainda haja reparos a serem feitos, pois nenhuma revolução física se faz da noite para o dia. Contudo, os cataclismos previstos nos Evangelhos nada têm de material; eles são eminentemente morais.

O Espiritismo não é o promotor da regeneração, pois a mesma encontra-se nos desígnios de Deus. O Espiritismo nos dá informações, conhecimentos, subsídios para uma melhor compreensão do que está acontecendo e do que está por vir. A tese  os tempos são chegados  é motivo de diversas interpretações: para os incrédulos, nenhuma importância têm; para a maioria dos crentes, qualquer coisa de místico ou de sobrenatural, parecendo-lhes subversão das leis Naturais. O Espiritismo, ao contrário, vem nos dizer que esses acontecimentos estão de acordo com a Divina Providência.

As mortes coletivas, por exemplo, são um transtorno para a maioria da população. Para o Espiritismo, é fator de progresso. Allan Kardec diz-nos que, quando partem muitos de uma só vez, a possibilidade de eles anteverem o progresso é muito maior se eles fossem um a um, dois a dois, dez a dez. Se ficassem encarnados, demorariam muito para voltarem à prática do bem; as ideias retrógradas poderiam ir sedimentando mais e mais que de nada adiantaria viver mais anos neste Planeta. A melhor solução, não resta dúvida, é o desencarne coletivo.

O Planeta Terra esta passando do Mundo de Expiação e Provas para o Mundo de Regeneração. No Mundo de Regeneração, o bem deve predominar sobre o mal. Por isso, para aqueles que ainda não se ajustaram à lei do amor, para aqueles que ainda se comprazem em fazer o mal pelo mal, haverá a emigração para outros orbes menos evoluídos. Os desencarnes coletivos fazem com que os Espíritos possam refletir mais objetivamente sobre a sua condição espiritual. Se, nessa passagem pelo mundo dos Espíritos, eles já conseguirem vislumbrar uma outra situação moral, poderão retornar a este Planeta, não precisando ir a mundos mais inferiores.

A geração nova é um modelo de perfeição do Espírito. Ninguém pensará em prejudicar o seu próximo. A tônica será: "cada um suplante a si mesmo e não ao seu próximo".

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12 setembro 2008

Moradas na Casa do Pai


1. Não se turbe o vosso coração. – Credes em Deus, crede também em mim. Há muitas moradas na casa de meu Pai; se assim não fosse, já eu vo-lo teria dito, pois me vou para vos preparar o lugar. – Depois que me tenha ido e que vos houver preparado o lugar, voltarei e vos retirarei para mim, a fim de que onde eu estiver, também vós aí estejais. (João 14, 1 a 3)

A casa do Pai é o Universo. As moradas são os diversos mundos que circundam no espaço infinito, servindo de habitação apropriada ao adiantamento dos diversos Espíritos, espalhados por todo o Cosmo. Por Universo, entende-se o conjunto de tudo quanto existe (incluindo-se a Terra, os astros, as galáxias e toda a matéria disseminada no espaço). Tomado como um todo; o cosmo, o macrocosmo. Em filosofia, diz-se de tudo quanto existe no espaço e no tempo.
Embora não haja uma classificação absoluta, Allan Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, divide-os em cinco tipos:

1) Mundos Primitivos, destinados às primeiras encarnações do Espírito. Nesse mundo, o ser humano ainda é muito rude, pois está na infância da sua evolução espiritual. O livre-arbítrio, pouco desenvolvido, não oferece ao Espírito muitas oportunidades de escolha. No processo de encarne-desencarne, vai adquirindo o senso moral, que o torna responsável pelas suas próprias ações.

2) Mundos de Expiação e Provas, em que há o domínio do mal. É a situação do planeta Terra. Nele o mal tende a suplantar o bem. Os mansos são enganados pelos inescrupulosos, o mais forte rouba o mais fraco, há guerras e rumores de guerra. Além do mal físico, há também o mal moral, que é a atitude de pensar no mal em vez de pensar no bem. Por esta razão, Jesus condenava o "pecado pelo pensamento", pois a pessoa já tinha cometido o "pecado" de coração.

3) Mundos de Regeneração, em que as almas que ainda têm o que expiar haurem novas forças, repousando das fadigas da luta. Pode-se dizer que já há um equilíbrio entre o bem e o mal.

4) Mundos Felizes ou Ditosos, em que o bem sobrepuja o mal. O homem já não é mais lobo do próprio homem, como afirmara Hobbes. Há leveza de locomoção; basta aplicar a vontade que se vai aonde quiser. As doenças, as guerras e os homicídios estão em queda e, consequentemente, toda infra-estrutura montada para atender essa demanda.

5) Mundos Celestes ou Divinos, habitações de Espíritos depurados, onde exclusivamente reina o bem. As doenças, as prisões e os hospitais não existem mais, porque os Espíritos, devidamente enquadrados na lei de amor, não têm mais necessidade dessas organizações para a sua devida evolução espiritual.

Temos facilidade de pintar as agruras do "inferno" e poucas palavras para descrever o "céu". Por quê? De certa forma, somos o resultado do que pensamos. Se o nosso pensamento é superficial, terra-a-terra, faltam-nos condições de perceber as idéias das esferas mais altas. O corvo voa baixo; a águia procura o cimo. Estamos muito mais para corvo do que para águia. Às vezes, até falamos desses mundos superiores, mas é muito mais fruto de leituras ou de comunicações mediúnicas do que da nossa sapiência.

Santo Agostinho, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, diz: "A Terra está classificada no mundo de provas e expiações. Esteve material e moralmente num estado inferior ao que está hoje, e atingirá sob esse duplo aspecto, um grau mais avançado. Ela atingiu um dos seus períodos de transformação, em que, de mundo expiatório, tornar-se-á mundo regenerador; então os homens serão felizes, porque a lei de Deus nela reinará".

Para Reflexão: "Nos mundos mais adiantados, o homem não procura elevar-se acima dos outros, mas acima de si para se aperfeiçoar".

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10 setembro 2008

Como Obter Novas Idéias

Pietro Ubaldi entendia a mediunidade como uma busca ativa de novas idéias. Ele não se conformava em ficar passivo, esperando que um Espírito viesse lhe comunicar esta ou aquela mensagem. Queria, através de sua própria capacidade intelectual e espiritual, buscar novos conhecimentos, no sentido de viver em consonância com os princípios de uma moral elevada.

A crença de que o homem pode controlar a sua vida, por intermédio de uma força mental, é bastante antiga. Segundo o Upanishad, “O que o homem pensa, eis o que ele é; isto é um velho segredo”. Salomão disse: “O que o homem pensa, ele é”. Platão também opinou: “Minha mente é meu próprio ser. Tomar conta do meu próprio ser corresponde a tomar conta de minha mente”. No Novo Testamento há a seguinte afirmação: “Transforma-te pela renovação de tua mente”.

O ponto de partida, para a obtenção de idéias mais claras e mais justas, é a mente divina. Geralmente somos influenciados pelos livros que lemos, pelas palavras que escutamos, pela autoridade desta ou daquela pessoa. Tudo isso é uma espécie de atalho, um mapa rodoviário. Porém, para entrarmos em contato com a mente divina precisamos de um mapa espiritual, de um roteiro fornecido pelo próprio Deus. Isto se encontra em cada um de nós. E nada mais é do que as suas Leis, gravadas em nossa consciência.

A mente de Deus é um reservatório ilimitado de idéias, pensamentos e sentimentos. Todos nós podemos usufruir desse manancial de sabedoria. Há, porém, um problema: só captamos aquilo que conseguimos apreender. Como ir além, se a nossa capacidade de retenção é baixa, pequena, mesquinha e tacanha? Em realidade, não é Deus que deve se aproximar de nós, mas nós que devemos nos esforçar para elevar o nosso pensamento até Ele.

Ao buscarmos as novas idéias, convém eliminarmos todo o tipo de interdição. Não seguir o fluxo de idéias, com medo da opinião contrária dos outros, é um dos bloqueios mais comuns. Nesse caso, lembremo-nos da passagem evangélica: “A fé que não enfrenta o ridículo dos homens não é fé verdadeira”. Se a idéia captada é verdadeira e serve para nos auxiliar com segurança a nossa caminhada espiritual, não há mais razão para nos calarmos em virtude das represálias.

A criatividade pode ser conseguida de diversas formas. Alguns mestres ensinam-na pelo caminho da ambigüidade. O general S. Patton dizia: “Se você disser às pessoas aonde ir, mas não como chegar lá, vai ficar espantado com os resultados”. Eis algumas frases ambíguas que nos fazem pensar: “o ferro afunda, mas o navio de ferro flutua”; “a experiência é efeito. Não és a experiência. Se não és a experiência, podes mudar a causa e obter nova espécie de experiência”; “as únicas limitações que sofremos são impostas por nós mesmos”.

Busquemos sempre as idéias de luz. Talvez não percebamos de pronto, mas no momento oportuno obteremos o que procuramos.

São Paulo, 10/09/2008

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28 agosto 2008

Palavras da Vida Eterna

Rodeiam-nos as palavras. Os nossos ouvidos estão diariamente em contato com uma miríade de informações, provenientes de diversas fontes, tais como, rádio, televisão, familiares, amigos, vizinhos, pessoas falando ao celular. Desta imensa gama, o cérebro registra apenas uma pequena porção. O resto é esquecido. Além disso, há também o esquecimento voluntário, ou seja, o material que achamos dispensável. Neste último caso, devemos tomar muito cuidado para não apagar "as palavras da vida eterna".

A Palavra de Deus pode ser vista historicamente. No Velho Testamento, a Palavra de Deus é veiculada pelos profetas, isto é, os intermediários, os enviados de Deus. A palavra nesse contexto tem dinamismo, vigor, muito diferente do logos grego, em que a palavra servia muito mais para as lucubrações do pensamento. Moisés, por exemplo, conversou face a face com Deus, recebendo Dele a tábua dos Dez Mandamentos. Deus também falou diretamente com Abraão.

No âmbito do Novo Testamento, a Palavra é proferida por Jesus e anotada pelos seus Apóstolos, pois como é do conhecimento geral, Jesus não nos deixou nada escrito. As palavras do Novo Testamento, ao contrário das do Velho Testamento, implicam mudança de paradigma. O ouvinte, depois de tomar conhecimento da Palavra de Deus, deve procurar ajustar a sua conduta ao que acabou de aprender. Jesus dizia: "Aquele que tem olhos de ver, veja; aquele que tem ouvidos de ouvir, ouça".

A Palavra no Novo Testamento foi traduzida como Evangelho que, do grego eu aggélion, significa Boa-Nova, Boa Notícia, ou seja, Boa Palavra. Observe que a origem etimológica do terrmo palavra é parabola. Jesus, por sua vez, ensinava por parábolas, ou seja, por palavras. E, dentre as parábolas contadas por Jesus, a que melhor retrata as "palavras da vida eterna" é a "Parábola do Semeador". Nessa parábola, a semente (palavra) foi lançada ao solo (condição espiritual do ser humano). Em cada tipo de terreno (grau de evolução do Espírito) em que a semente caiu brotou um tipo diferente de fruto.

Os Apóstolos, depois de Jesus, são também considerados "divulgadores" da Palavra de Deus. Eis algumas instruções dadas por Jesus aos seus apóstolos: "Em qualquer cidade ou povoado em que entrardes, indagai quem neles é digno; e aí ficai até vos retirardes. Ao entrardes na casa, saudai-a; se, com efeito, a casa for digna, venha sobre ela a vossa paz; se, porém, não o for, torne para vós outros a vossa paz. Se alguém não vos receber, nem ouvir as vossas palavras, ao sairdes daquela casa ou daquela cidade, sacudi o pó dos vossos pés". (Mateus, 10, 5 a 14)

Depois de ouvida e registrada a Palavra de Deus, não podemos mais recuar. Há muitas passagens evangélicas que nos exortam a caminhar, mesmo com os pés e os joelhos desconjuntados. Eis algumas delas: "Aquele que tomar da charrua e olhar para trás não é digno do Reino de Deus"; "Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras diante dessa geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória do seu Pai com seus santos anjos"; "Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e da Boa Notícia, vai salvá-la".

Não sabemos o alcance de nossas palavras. Contudo, se estivermos agindo sob a inspiração dos bons Espíritos, com certeza as nossas palavras terão um impacto muito grande na mente daqueles que nos ouvem.

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08 agosto 2008

Lei Divina e Natural

A lei é uma norma, um preceito, um princípio, uma regra, uma obrigação imposta pela consciência e pela sociedade. De forma geral, expressa um dever ser ou ter de ser. A lei é modelo, medida e diretriz da conduta humana. A lei é um imperativo básico da sociedade. Sócrates, na sua época, chegou a afirmar que obedecia até às más leis, para não estimular outros seres humanos a desobedecer às boas.

A Enciclopédia Verbo da Sociedade e Estado destaca três espécies de lei: a Lei Eterna, a Lei Natural e a Lei Positiva. A Lei Eterna, também chamada de "lei das leis" consiste na ordenação por Deus de todos os seres do Universo ao seu fim. A Lei Natural é a participação das leis eternas na criatura racional. A Lei Positiva é a lei estabelecida historicamente, mediante a qual a razão divina (lei divina positiva) ou humana (lei humana positiva) regulam a conduta dos seres humanos.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, diz-nos que a Lei Divina é a Lei de Deus, eterna e imutável como o próprio Deus. Acrescenta que: "Entre as leis divinas, umas regulam o movimento e as relações da matéria bruta: são as leis físicas; seu estudo pertence ao domínio da Ciência. As outras concernem especialmente ao homem e às relações com Deus e com os seus semelhantes. Compreendem as regras da vida do corpo e as da vida da alma: são as leis morais". Por isso, diz-se que "A lei moral é uma lei ideal e a lei física uma lei real".

Em se tratando da lei moral, cabe-nos distinguir o bem do mal, o que não é uma tarefa muito fácil. Na antiguidade, o demônio de Sócrates não tinha por norma dizer o que ele devia fazer, mas adverti-lo do que ele não devia fazer. Os "Dez Mandamentos", do Velho Testamento, tinham também por objetivo evitar o mal, com os dizeres: "não faça isso", "não faça aquilo". Mas o que é o bem? Sempre que o vemos, vemo-lo como uma ausência do mal, como bem expressa Wilheim Busch: "O bem – este é o princípio incontestável – nada mais é do que o mal não consumado".

Allan Kardec, na pergunta 630 de O Livro dos Espíritos, esclarece-nos que o bem é tudo aquilo que está de acordo com a lei de Deus e o mal é tudo o que dela se afasta. Mas o que significa a lei de Deus? Expressamo-la melhor por intuição do que por palavras. Essa intuição mostra-nos um imperativo básico da lei natural, ou seja, o de "fazer o bem e evitar o mal" (bonum est faciendum, malum vitandum). A sua prática está em seguir a lei áurea: "Fazer aos outros o que gostaríamos que nos fosse feito".

Seguir o caminho do bem requer uma análise acurada da consciência. A consciência, que significa etimologicamente um saber testemunhado ou concomitante, isto é, simultâneo, apresenta-se de duas formas: espontânea e reflexiva. A consciência espontânea é aquela que capta o objeto; a consciência reflexiva é aquela que se separa do objeto para vê-lo sob um outro ponto de vista, sob uma outra visão. O conhecimento de si mesmo, que é uma ação reflexiva da consciência, não é um simples estado de contemplação, mas uma tomada de consciência para o cumprimento do dever.

A Lei Divina ou Natural é intuída por todos os viventes porque foi escrita por Deus em nossa consciência. Às vezes nos esquecemos dela e nos chafurdamos no mal. Contudo, a misericórdia divina é infinita e está sempre nos enviando Espíritos de luzes – os profetas – para nos direcionar novamente no caminho do bem.

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21 julho 2008

Pobre de Espírito

Pobreza – do lat. paupertas - significa falta do necessário à vida. Confunde-se, em geral, com miséria, em que há falta até do essencial. Na pobreza, há carência do relativamente supérfluo. Diz-se relativamente porque a pobreza em um estado pode ser miséria em outro, e o que é supérfluo a uns pode ser já o necessário para outro.

No vocabulário cristão, a palavra pobreza tem uma ambigüidade que é preciso esclarecer. Em primeiro lugar, ela pode representar a simples carência de bens. Em segundo lugar, está relacionada com a passagem evangélica, em que Jesus diz: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus". (Mateus, cap. V, v. 3). O sentido de "pobres de espírito" ou "pobres em espírito" é muito discutido. Não significa desapego, mas refere-se às classes humildes, cujo espírito é oprimido pela necessidade e pelo abatimento.

O caráter revolucionário dessa afirmação não deve ser menosprezado: é uma resposta implícita à arrogância dos fariseus. A maldição da pobreza é substituída pela bem-aventurança, que excede toda a riqueza. O termo não significa que apenas os pobres entram no reino do céu, mas também os pobres. É, assim, uma avaliação positiva da pobreza e não uma crítica negativa da riqueza.

A pobreza pregada por Jesus é uma atitude de livre escolha com relação aos bens espirituais. Difere fundamentalmente da carência de bens materiais. No seu sentido mais profundo, é a aderência do crente à vontade do Criador, a resignação ante os revezes da fortuna, a simplicidade de coração, a pureza dos sentimentos, ou seja, a ingenuidade da alma, que se assemelha à criança.

Simplicidade de coração e humildade de espírito são as molas propulsoras de nosso progresso espiritual. Nesse sentido, o ignorante que possui essas qualidades será preferido ao sábio que as desdenha. É que para alcançarmos o reino do céu devemos crer mais na Providência Divina do que em nós mesmos. Dessa forma, Jesus aproveitava todas as suas oportunidades para exaltar a humildade, que nos aproxima de Deus, e combater o orgulho, que nos distancia Dele.

Não nos abatamos quando formos menosprezados e taxados de "pobres em espírito". O importante é crescermos em humildade e simplicidade de coração.

São Paulo, 08/12/1996
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Deus e Mamon

Deus – do lat. Deus, pelo gr. Theos – é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. Mamon  do lat. tardio mammona ou mammonas  significa dinheiro, riqueza, propriedades. Deriva de Mamon, Deus das riquezas da mitologia Síria e fenícia.

São Lucas, no cap. XVI, v. 13 do seu Evangelho, narra a passagem em que Jesus condena a riqueza nos seguintes termos: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque, ou odiará a um e amará ao outro, ou se afeiçoará a um e desprezará o outro. Não podeis servir, ao mesmo tempo, a Deus e a Mamon". Como há inúmeros textos evangélicos condenando a riqueza, tem-se a impressão de que o Cristianismo subestima a dimensão econômica do homem.

A Bíblia do Velho Testamento, por exemplo, faz uma apologia positiva da riqueza, dizendo que ela é aspiração humana e bênção divina. Já a Bíblia do Novo Testamento, principalmente com Jesus, abomina-a. Para compreendermos a mudança no eixo com relação à riqueza, convém raciocinarmos em termos dos elementos culturais da época de Jesus. No começo da era cristã, os romanos detinham o poder e abusavam de suas posses materiais. É nesse sentido que Jesus condena a riqueza, ou seja, sua má utilização, não a sua posse.

O homem tem anseio natural à aquisição de bens materiais. Deles provém a sua subsistência vital. Como é vital, acaba enfatizando-a, em detrimento dos bens espirituais. Observe os esforços infrutíferos do marxismo com relação ao fim da desigualdade dos bens possuídos e do direito de propriedade privada. A distribuição justa da riqueza é muito mais uma questão de reformulação interior do que de proibições estatais.

Allan Kardec, no cap. XVI de O Evangelho Segundo o Espiritismo, traça-nos um roteiro seguro quanto ao uso da riqueza. Diz-nos que a riqueza é uma prova mais difícil do que a pobreza. Orienta-nos para aplicá-la na caridade, não a que estiola o necessitado, mas a que o ergue até o Pai Celestial. Enfim, mostra-nos que a verdadeira propriedade é a soma dos conhecimentos e qualidades morais armazenada em cada um de nós.

Optemos por servir a Deus. Somente assim ficaremos livres do jugo do Mamon, ou seja, da obsessão pela riqueza material.

Saõ Paulo, 30/07/1996


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Prece

Prece – do lat. prece – significa rogo e, por extensão, pedido instante; súplica. É o orvalho divino que aplaca as nossas chagas mais íntimas. Pela prece pomo-nos em relação com Deus para um pedido, um agradecimento ou um louvor. A prece, enfim, resume todas as nossas aspirações humanas e divinas.

Filosoficamente considerada, a prece traduz-se por um ato espontâneo de adoração ao Criador. A naturalidade da oração nota-se no fato de que a oração é elemento latente na vida de todos. As fundamentações em torno da prece podem ser encontradas nas perguntas 653 a 666 de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. O codificador do Espiritismo propõe, entre outras, as seguintes questões: Qual o caráter geral da prece? A prece torna o homem melhor? Podemos pedir eficazmente o perdão de nossas faltas? As preces que fazemos por nós mesmos podem modificar a natureza das nossas provas e desviar-lhes o curso?

Cientificamente considerada, a prece traduz-se por uma comprovação positiva do seu efeito. O médico-cirurgião Alexis Carrel, em seu livro A Oração - Seu Poder e Efeitos, diz-nos que é difícil separar a ação curativa do remédio do efeito curativo da oração. Contudo, regozija-se com o paciente que ora, porque em suas observações notou que ele facilita o processo de cura. Allan Kardec, no cap. XXVII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, discorre sobre a ação da prece. Esclarece-nos que pela nossa vontade podemos atuar sobre o fluido universal e provocar os "milagres", que nada mais são do que uma extrema aceleração dos processos normais de cura.

Religiosamente considerada, a prece traduz-se pela elevação moral da criatura. Pode, também, estar envolta com aquela súplica: "Senhor, ensina-nos a orar". Liga-se a um sentimento de caridade, quando colocamo-nos à disposição dos bons Espíritos para orarmos por nós mesmos ou pelos outros. Nesse sentido, podemos orar para pedir força de resistir a uma tentação, para pedir um conselho, por alguém que esteja em aflição, por nossos inimigos, por um agonizante etc.

A divisão filosófica, científica e religiosa é apenas didática. Na prática, deveríamos vê-la num todo. Quer dizer, o ato de adoração deve ser questionado e analisado sob esses três ângulos, conjuntamente. Dessa forma: estamos orando como os fariseus, que gostam de ser vistos? Nossos impulsos dirigidos ao Alto são puros e necessários? Pomos uma dose de razão ao sentimento de súplica?

A prece, como vimos, constitui emissão eletromagnética de relativo poder. Empenhemo-nos, pois, em fortificar a nossa fé, a fim de que as nossas emissões sejam cada vez mais poderosas.

São Paulo, 15/12/1996


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Convidar os Pobres e os Estropiados

Pobre – do lat. paupere – significa aquele que não tem o necessário à vida; cujas posses são inferiores à sua posição ou condição social. Estropiado – do italiano stroppiare, através do espanhol estropear –, aleijado, mutilado.

São Lucas, no cap. XIV, vv. 12 a 15 do seu Evangelho, retrata "os pobres e os estropiados" nos seguintes termos: "... quando deres um jantar ou uma ceia, não convides os teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos; para não suceder que eles, por sua vez, te convidem e sejas recompensado. Antes, ao dares um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos".

A transmissão do conhecimento na época de Jesus era feita através de parábolas, ou seja, expressava-se um dado conteúdo tendo-se em mente o seu sentido alegórico. Além disso, para que possamos entender o alcance das palavras de Jesus, devemos valer-nos da dimensão cultural do povo judeu. Este era dominado pelos romanos, que ostentavam poder e erudição, desprezando os menos afortunados da sorte. É contra essas injustiças que Jesus endereçava a maioria de suas palavras.

Allan Kardec, no cap. XIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, esclarece-nos o sentido alegórico contido no texto evangélico. Diz-nos que o fundo do pensamento está em considerar os pobres e os estropiados como aquelas pessoas que não poderão retribuir, ou seja, devemos fazer o bem pelo bem, sem outra expectativa de recompensa. Ainda: explica-nos que por festins devemos entender, não o repasto propriamente dito, mas a participação na abundância de que desfrutamos.

"Os pobres e os estropiados", na concepção bíblica, exorta-nos à reflexão. Até que ponto estamos dando atenção aos poderosos, aos bem-ajustados na sociedade, em detrimento dos mais necessitados? Dessa forma, parece-nos que a tônica desse ensinamento é que saibamos renunciar ao nosso comodismo, a fim de auxiliar aos mais carentes, pondo em prática a máxima: "não são os sãos os que precisam de médico, mas os enfermos".

Façamos o bem pelo bem. Essa é a única fórmula capaz de dar-nos tranquilidade neste mundo de provas e de expiações em que vivemos.

São Paulo, 17/07/1999

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Carregar a Cruz

Cruz - do lat. cruce - significa antigo instrumento de suplício, constituído por dois madeiros, um atravessando no outro, em que se amarravam ou pregavam os condenados à morte. Salvação - do lat. salvatione -, ato ou efeito de salvar(-se), ou de remir, ou seja, livrar-se do perigo ou da ruína.

A cruz é um dos símbolos cuja presença é atestada desde a mais alta Antigüidade: no Egito, na China etc. A cruz é o terceiro dos quatro símbolos fundamentais, juntamente com o centro, o círculo e o quadrado. Sua função é intermediar os outros três. Mostra, também, os quatro pontos cardeais. É o elo de ligação entre a terra e o céu, o tempo e o espaço. A cruz simboliza o Crucificado, o Cristo, que, pregado ao madeiro, representa os quatro cantos do mundo, voltados para o Salvador da humanidade.

No Novo Testamento, o simbolismo teológico da cruz só aparece em uma afirmação do próprio Jesus e nos escritos de Paulo. Jesus disse que aquele que o segue deve tomar a sua própria cruz, perdendo assim a vida para conquistá-la (Mateus, 10, vv. 38 e 39; Marcos, 8, vv. 34; Lucas, 9, vv. 23 a 25; João, cap. XII, vv. 24 e 25). Paulo pregava Cristo e Cristo crucificado, embora isso fosse escândalo para os hebreus e loucura para os gentios.

Allan Kardec, no cap. XXIV de O Evangelho Segundo o Espiritismo, tece comentários acerca de "aquele que quer me seguir, carregue sua cruz". A frase implica seguirmos os ditames de nossa fé, mesmo que para isso tenhamos de sofrer, até mesmo, a perda da própria vida. Quem assim proceder ganhará o reino dos céus. Mas àqueles que sacrificam os bens celestes preferindo os gozos terrestres Deus dirá: "Já haveis recebido a vossa recompensa".

Regozijemo-nos quando os homens, por ignorância ou má-fé, injuriarem-nos e odiarem-nos devido à sinceridade de nossa fé. Suportemos o mal, que ele é passageiro. Tenhamos em mente que as promessas do Cristo não foram vãs. Se ele morreu na cruz para nos salvar, por que esse desespero, quando algo não nos ocorre a contento?

A cruz simboliza o nosso sofrimento. Saibamos carregá-la, afrontando, corajosamente, as dificuldades, as ansiedades e o comodismo que tanto nos atrapalham.

São Paulo, 21/08/1999


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Perturbação Espírita

Perturbação – do lat. perturbatione – significa mudança, alteração, modificação. Perturbação espírita - estado de confusão, embaraço, obnubilamento (maior ou menor, conforme o grau de adiantamento moral) do Espírito no momento de sua separação do corpo físico.

No momento da morte tudo é confuso. O Espírito, isento da vestimenta física, fica como que atordoado ao entrar numa dimensão diferente daquela que estava vivenciando. Há perda de lucidez e de memória. Muitos dizem-se penetrar num túnel escuro. As sensações dos que morreram com pureza de consciência são completamente opostas das daqueles que morreram apegados aos bens materiais. É que os primeiros se preparam para o porvir; os demais, encastelaram-se na superficialidade da matéria.

A duração do estado de perturbação espiritual, no mundo dos Espíritos, varia para cada um de nós. Uns recobram a lucidez e a memória rapidamente; outros, lentamente. Tudo de acordo com o grau de evolução espiritual alcançado. De qualquer forma, inteirando-nos de nossas experiências passadas, boas ou más, podemos projetar o nosso futuro, inclusive com relação a uma próxima encarnação.

Os gozos e as penas futuras dependem do estado consciencial de cada ser. Os Espíritos que praticaram o bem estarão com a consciência pura, portanto, aptos a usufruírem das alegrias celestiais. Os Espíritos que praticaram o mal, terão a consciência turva, portanto, deverão sofrer as penas, no sentido de se reajustarem às leis naturais.

O conhecimento do Espiritismo auxiliar-nos-á na compreensão da maior ou menor duração da perturbação espiritual. Através dele, vamos absorvendo a essência das leis divinas e, dessa forma, antecipando o que há de vir. Convém salientar que o simples conhecimento da Doutrina Espírita não nos levará ao estado de plena felicidade. Importa, muito mais, a pureza de consciência e a prática do bem, que são factíveis a toda a humanidade terrestre.

Estudemos denodadamente o Espiritismo, a fim de que possamos melhorar a nossa conduta e, conseqüentemente, criarmos condições para habitar um mundo ditoso e feliz.

São Paulo, 11/11/1997
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Inteligência e Instinto

Inteligência – do lat. intellectus, inter e lec. = escolher entre, ou intus e lec = escolher dentro, como preferem outros - é a faculdade que tem o espírito de pensar, conceber, compreender. Em sentido restrito, é a função de apreender conexões. Instinto - do lat. obsoleto instinguo, de in e stinguo, e do gr. stizô - significa impulso inato, inconsciente, irracional, que leva um ente vivo, um animal, a proceder de tal ou tal forma.

Os psicólogos procuram realizar uma tarefa difícil: a de distinguir a inteligência do instinto. Para muitos deles a inteligência é mais flexível, sendo até mesmo a soma das experiências do passado, que nos ajuda a tomar decisões no presente. Por outro lado, o instinto é cego, tal qual se observa no cão, que, mesmo domesticado, pisoteia o lugar em que vai dormir, como se devesse dormir sobre a erva.

A observação cuidadosa do comportamento de alguns animais mostra que o conceito comum de instinto, como mero impulso simples, não basta para explicar a complexidade de seus atos. A aranha construirá a teia diferentemente, segundo as circunstâncias e o lugar que disponha. O castor constrói diferentemente, segundo a corrente da água, o nível da mesma ou a presença de homens. Por essa razão, acabam distinguindo o ato instintivo do ato reflexo.

O Espírito André Luiz, no cap. IV de Evolução em Dois Mundos, psicografado por F. C. Xavier, diz-nos que, na retaguarda do transformismo do princípio inteligente, o reflexo precede o instinto e o instinto, a atividade refletida, que é a base da inteligência; nas linhas da civilização, a inteligência, no círculo humano, é seguida pela razão e a razão pela responsabilidade. Acrescenta ainda que a herança e o automatismo estruturam o princípio espiritual, desde sua origem, a fim de que este atinja a maturação no campo angélico.

Allan Kardec, no cap. III de A Gênese, relaciona instinto, paixão e inteligência. Diz-nos que o instinto é sempre guia seguro e nunca erra. Pode tornar-se inútil, mas nunca prejudicial. Enfraquece-se com a predominância da inteligência. As paixões, por sua vez, são úteis até a eclosão do senso moral, em que o ser passivo transforma-se em ser racional. Depois disso, torna-se nociva, caso não seja disciplinada pela razão.

Inteligência e instinto são duas faculdades de nosso espírito. Saibamos ponderá-las eficazmente, a fim de que possamos viver em paz com a nossa consciência.

São Paulo, 13/09/1998 


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Espírito

Espírito – do lat. spiritus – significa "sopro", "respiro". Há muitos sentidos relacionados a esse termo: figurado, em que o espírito opõe-se à letra; impessoal, em que o espírito é a realidade pensante; particular, em que o espírito torna-se sinônimo de inteligência. De acordo com o Espiritismo, o Espírito é a substância subtilíssima por essência e que constitui no homem uma das substâncias do seu composto ternário: Corpo, Perispírito e Espírito.

A origem dos Espíritos ainda é-nos desconhecida. Sabemos que de Deus, que é a causa primária de todas as coisas, vertem-se dois princípios: o princípio inteligente e o princípio material. Individualizados, denominam-se respectivamente Espírito e Matéria. O Espírito, criado simples e ignorante, utiliza-se da matéria para sua evolução. A cada nova encarnação, novas experiências e novas oportunidades de aprendizado.

A alma é o Espírito encarnado. Embora muitas pessoas usem esses dois termos como sinônimos, há substancial diferença de concepção. O Espírito é o ser inteligente da criação que povoa o universo e engloba todas as encarnações. A alma é o ser parcial, limitado e circunscrito a uma encarnação específica. No primeiro, a amplitude; no segundo, a redutibilidade. É, pois, nesse processo dialético que o Espírito evolui até atingir a perfeição.

A evolução é do Espírito. Quando encarnado, esquece temporariamente o passado. Contudo, fica-lhe uma vaga intuição do que fez em outras vidas e daquilo que poderia ser feito nesta e nas próximas existências. Se pudéssemos aquilatar o trabalho dos benfeitores espirituais, no sentido de estarmos na situação que estamos, certamente daríamos maior valor ao nosso corpo físico e a tudo o mais que nos cerca.

O Espírito age através do Perispírito. Ao contato perispiritual entre o Espírito e a alma denominamos mediunidade. Assim, é pelo intercâmbio mediúnico que os Espíritos vêm alertar-nos sobre a imortalidade da alma e da sobrevivência do ser. Mostra-nos, também, que a morte é apenas uma mudança de dimensão: de encarnados passamos a desencarnados.

O Espírito é o princípio da vida. Cuidemos dele como se fosse um diamante bruto à espera de ser lapidado.

São Paulo, 22/09/1997

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