12 março 2006

A Luz e o Discípulo

A luz é o símbolo multimilenar do desenvolvimento espiritual. É a herança de Deus para as trevas. É a substância divina gerada nas fontes superiores da esfera espiritual. É a mais elevada, potente e veloz das expressões do movimento, suscetível de acrisolar-se ao infinito. Discípulo é todo aquele que segue o seu mestre. Discípulos do Senhor são todos aqueles que seguem a Doutrina do Cristo: primeiro, os doze: depois, os setenta e dois; hoje, a humanidade dita cristã.

A luz, vista como símbolo, teve várias ocorrências ao longo do tempo. Na Antiguidade, Platão, no seu famoso Mito da Caverna, compara, metaforicamente, a luz ao brilho do Sol. Deus, no livro Gênesis do Velho Testamento, separa a luz das trevas. Jesus, no Novo Testamento, é a luz do mundo. Santo Agostinho, na Idade Média, compara o conhecimento à luz e dedica a Deus a fonte que ilumina a tudo. Descartes associa luz à razão. Locke chama luz de lamparina ao débil conhecimento do ser humano.

Jesus Cristo, quando esteve encarnado, há 2000 anos, trouxe-nos a Boa Nova, o Evangelho, a Luz da espiritualidade superior. Escolheu os seus discípulos, alertando-os que seriam o sal da terra, a luz do mundo. Posteriormente, em suas instruções, disse-lhes para procurar as ovelhas perdidas da casa de Israel, curar os enfermos, ressuscitar os mortos, purificar os leprosos, repelir os demônios; lembrou-lhes de serem prudentes como as serpentes e simples como as pombas; estimulou-lhes a nada temer, pois nada há encoberto, que não venha a ser revelado; nem oculto, que não venha a ser reconhecido; advertiu-os que não veio trazer paz à terra, mas espada; por fim, recomendou-lhes dar de beber aos pequeninos, pois o reino dos céus a estes se assemelha.

Os ensinamentos de Jesus Cristo e dos seus discípulos eram simples e objetivos: enaltecer a vida espiritual. Com o tempo, o poder das trevas amplia as suas asas de águia e deturpa a essência destes conhecimentos. Assistimos ao advento de diversas guerras, denominadas santas, as perseguições de todos os matizes, a inquisição etc. No âmbito da ortodoxia, criaram-se os dogmas, os rituais, o comércio das indulgências e a confissão auricular, de modo que o Cristianismo do Cristo foi quase que totalmente desfigurado, restando apenas o que o Padre Alta denomina de Cristianismo dos vigários.

Quando Jesus propôs aos seus discípulos serem a luz do mundo, chamou-lhes, também, a atenção para a grande responsabilidade na propagação do conhecimento. O Espírito Emmanuel adverte-nos que a luz gasta o pavio. Nesse sentido, o cristão, sem espírito de sacrifício, é letra morta no santuário do Evangelho. É por isso que todo o propagador da luz deve clarear sem ofuscar, ou seja, antes de semear a boa semente, precisa arrotear o terreno espiritual do seu interlocutor, a fim de que as palavras encontrem eco em seus ouvidos.

Agradeçamos a dádiva da luz celestial e não nos detenhamos ante o poder das trevas. Lembremo-nos de que a luz de uma pequena vela é capaz de iluminar a escuridão da noite.

São Paulo, 12/04/2000
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